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MNAA, a nova GEOGRAPHIA das manhãs dos primeiros sábados

por Raul Lufinha, em 09.12.19

À mesa do GEOGRAPHIA com vista para o MNAA

À mesa do GEOGRAPHIA com vista para o MNAA

Não é só a localização que liga o restaurante de viagens GEOGRAPHIA ao vizinho Museu Nacional de Arte Antiga.

Com efeito, para além de ambos partilharem o largo onde se encontra o Chafariz das Janelas Verdes e que tem o nome do primeiro diretor do MNAA (Dr. José de Figueiredo), o GEOGRAPHIA, ao ser um restaurante dedicado aos pratos dos países dos quatro cantos do mundo que falam português, acaba por ser igualmente um prolongamento natural da visita ao museu, pois parte significativa do seu espólio museológico aborda precisamente a temática dos Descobrimentos e do relacionamento dos portugueses com os povos que fomos encontrando ao longo da Expansão.

De tal forma que o GEOGRAPHIA criou um programa especial para as manhãs dos primeiros sábados de cada mês – disponível igualmente de terça a sexta para reservas de grupo – que inclui uma visita ao museu, guiada pela equipa do MNAA, seguida de um almoço no restaurante com pratos dos quatro continentes.

Tendo o ponto de encontro sido o próprio GEOGRAPHIA.

Depois, no MNAA, a visita de dezembro, que correu muitíssimo bem, foi guiada por Leonor Amaral, a qual começou pelo Panorama de Lisboa no século XVIII (pré-terramoto) e depois prosseguiu pela Cruz de D. Sancho I, pela Custódia de Belém, pela Custódia da Bemposta, pelas porcelanas chinesas, pelas peças de marfim do Benim, incluindo um raro saleiro, pelos cofres, pelos Biombos Namban, pelos Painéis de São Vicente, pela Adoração do Magos, de Domingos António de Sequeira, pelo Ecce Homo, pela Baixela da Coroa Portuguesa de D. José I, pelas Tentações de Santo Antão, de Bosch, pelo Arcanjo São Miguel, pelo Presépio dito dos “Marqueses de Belas” e, finalmente, pela Capela das Albertas.

De facto, não há duas visitas guiadas iguais – para além da seleção das peças variar, o olhar e a abordagem de cada guia torna essa visita única e irrepetível.

O que é fundamental – aqui e em todos os museus – é que a visita seja mesmo guiada. Visitar um museu não é só passear pelas peças. Tal como comer não é só levar o garfo à boca – para valer a pena, é essencial perceber o sentido e o significado daquilo que nos está a ser apresentado.

Panorama de Lisboa no século XVIII

Panorama de Lisboa no século XVIII, antes do terramoto de 1755, obra de José Pinhão de Matos evocativa da despedida de S. Francisco Xavier ao Rei D. João III, antes da sua partida para a Índia, ocorrida em 1541

Saleiro

Trompas de caça ou oliphants. E, à direita, um saleiro: "notável e raro exemplo das peças que chegavam a Lisboa nos séculos XV e XVI, provenientes da costa ocidental africana. Este saleiro, incompleto, é um dos primeiros e raros testemunhos artísticos do encontro de culturas proporcionado pelos Descobrimentos portugueses. Usando modelos europeus, os marfins do Benim distinguem-se pelo atento registo dos portugueses, pormenorizando os seus traços fisionómicos (cabelos compridos, barbas de cortes diversos e narizes afilados). Ao nível da indumentária, no entanto, encontramos a marca da tradição artesanal africana: tanto o vestuário das figuras como o fundo da composição reproduzem padrões têxteis ainda hoje ritualmente fabricados nos teares da atual Nigéria”

Custódia de Belém

Custódia de Belém: “A mais célebre obra da ourivesaria portuguesa, pelo seu mérito artístico e pelo seu significado histórico. Mandada lavrar pelo Rei D. Manuel I para o Mosteiro de Santa Maria de Belém (Jerónimos), a Custódia de Belém é atribuível ao ourives e dramaturgo Gil Vicente. Foi realizada com o ouro do tributo do Régulo de Quilôa (na atual Tanzânia), em sinal de vassalagem à coroa de Portugal, trazido por Vasco da Gama no regresso da sua segunda viagem à Índia, em 1503, é um bom exemplo do gosto por peças concebidas como microarquiteturas no gótico final. Destinada a guardar e expor à veneração dos fiéis a hóstia consagrada, apresenta, ao centro, os doze apóstolos ajoelhados, sobre eles pairando uma pomba oscilante, em ouro esmaltado a branco, símbolo do Espírito Santo, e, no plano superior, a figura de Deus Pai, que sustenta o globo do Universo, materializando-se deste modo, no sentido ascensional, a representação da Santíssima Trindade. As esferas armilares, divisas do Rei D. Manuel I, que definem o nó, como que a unir dois mundos (o terreno, que se espraia na base, e o sobrenatural, que se eleva na estrutura superior), surgem como a consagração máxima do poder régio nesse momento histórico da expansão oceânica, confirmando o espírito da empresa do Rei Venturoso”

Biombos Namban

Biombos Namban: “A chegada dos portugueses ao Japão, em 1543, originou um intercâmbio comercial e cultural que ficou assinalado nestes dois pares de biombos: a curiosidade e o ambiente festivo pela chegada do barco negro dos namban jin (os bárbaros do sul, como eram designados os portugueses), ao porto de Nagasáqui. A minúcia do registo das naus, a descrição das suas valiosas cargas, a atenção dada aos comerciantes portugueses e aos missionários jesuítas que os acompanhavam tornam estas peças um documento histórico e visual ímpar sobre as relações entre Portugal e o Japão”

Painéis de São Vicente

Painéis de São Vicente (c. 1470): “Obra de enorme importância simbólica na cultura portuguesa e singular ‘retrato coletivo’ na história da pintura europeia. As seis pinturas atribuídas a Nuno Gonçalves apresentam um agrupamento de 58 personagens em torno da dupla figuração de São Vicente. Uma solene e monumental assembleia representativa da Corte e de vários estratos da sociedade portuguesa da época, em ato de veneração ao patrono e inspirador da expansão militar quatrocentista no Magrebe. Estas figuras, em volumes claramente afirmados, tão caracterizadas pela concentração expressiva dos rostos e atitudes quanto pela requintada definição pictórica dos trajes e adereços, parecem aliar, nesta encenação cerimonial, o intuito de uma evocação narrativa a uma visão contemplativa. Embora permaneça problemático o pleno entendimento da intenção e significado da obra, crê-se que o autor das tábuas é o pintor régio de D. Afonso V, Nuno Gonçalves, e que estariam originalmente integradas no retábulo de São Vicente da capela-mor da Sé de Lisboa”

Arcanjo São Miguel (1.º plano) e o Presépio dito dos “Marqueses de Belas” (ao fundo)

Arcanjo São Miguel (1.º plano) e o Presépio dito dos “Marqueses de Belas” (ao fundo)

Capela das Albertas

Capela das Albertas

Adoração dos Magos

Adoração dos Magos, de Domingos António de Sequeira (1828): “No final da sua vida, Sequeira regressou a Roma, onde se dedicou a uma notável série de quatro pinturas religiosas em que esta ‘Adoração dos Magos’ se insere. Constituem, todas, um verdadeiro testamento artístico, em que se expressam não apenas as suas preocupações fundamentais sobre a cor, a luz e a forma, mas também a sua busca de uma síntese entre a tradição clássica e o romantismo. Notável pela prodigiosa modelação das figuras e da luz e pela estrutura da composição, esta é talvez a mais conseguida pintura de toda a série”

 

Terminada a visita guiada ao Museu Nacional de Arte Antiga, regressou-se igualmente a pé ao GEOGRAPHIA.

Para um almoço que continuou à mesa a história das viagens dos portugueses pelos quatro cantos do mundo.

 

GEOGRAPHIA

A entrada principal do restaurante: “o GEOGRAPHIA homenageia a riqueza da ‘gastronomia que fala português’, nomeadamente o seu caráter global. Na verdade, a cozinha portuguesa foi uma das primeiras cozinhas de fusão, um produto das influências que os portugueses trouxeram dos ‘mundos’ onde ao longo dos séculos estiveram presentes, fossem essas ao nível dos ingredientes ou das técnicas culinárias. Da mesma forma, a cozinha dos países que falam português foi também influenciada pela cozinha portuguesa, tendo pratos que fazem a fusão das culturas, tradições e ingredientes locais com os que os portugueses lá deixaram”

GEOGRAPHIA

Rinoceronte, o símbolo do restaurante GEOGRAPHIA: “O rinoceronte que escolhemos como nossa imagem simboliza o cruzamento de culturas de expressão portuguesa que inspira o GEOGRAPHIA. É um desenho de Albrecht Dürer do animal, ao qual deram o nome Ulisses, que foi oferecido pelo Sultão do Gujarat ao Governador da Índia portuguesa, Afonso de Albuquerque, que o enviou depois ao Rei Dom Manuel I, onde chegou em maio de 1515. Desde a era Romana que não se via um rinoceronte na Europa. Nessa ocasião o rei decidiu testar a tese de Plínio, o ancião, que descreveu uma animosidade natural [entre] rinocerontes e elefantes, e organizou uma luta entre o recém-chegado animal e um dos elefantes da sua coleção. Relatos da época dizem que o rinoceronte avançou devagar em direção ao elefante, que assustado com o animal e com a multidão barulhenta que testemunhava o espetáculo, fugiu em pânico antes que um único golpe fosse dado”…

GEOGRAPHIA

… “No final do ano, o Rei enviou o animal como um presente para o Papa Leão X em Roma. Dom Manuel queria agradar ao Papa, para manter as concessões papais de posse exclusiva das novas terras que [as] suas forças navais estavam explorando no Extremo Oriente. O animal nunca chegou a Roma, tendo-se afogado quando o navio se afundou na costa da Itália. A sua carcaça foi recuperada e posteriormente empalhada para ser oferecida ao Papa”

GEOGRAPHIA

“O GEOGRAPHIA homenageia a riqueza da ‘gastronomia que fala português’, nomeadamente o seu caráter global. Na verdade, a cozinha portuguesa foi uma das primeiras cozinhas de fusão, um produto das influências que os portugueses trouxeram dos ‘mundos’ onde ao longo dos séculos estiveram presentes, fossem essas ao nível dos ingredientes ou das técnicas culinárias. Da mesma forma, a cozinha dos países que falam português foi também influenciada pela cozinha portuguesa, tendo pratos que fazem a fusão das culturas, tradições e ingredientes locais com os que os portugueses lá deixaram”

GEOGRAPHIA

Couvert: pão, manteiga e mandioca frita (BRASIL)

GEOGRAPHIA

Bolinhos de feijoada (BRASIL) com compota de pimentos no topo / Dim Sums de minchi (MACAU) com molho de soja e mel

GEOGRAPHIA

Caril de camarão à Goesa com arroz de coco (GOA)

GEOGRAPHIA

Escondidinho de puré de mandioca e leite de coco com carne de sol e queijo catupiry caseiro (BRASIL)

GEOGRAPHIA

Melhor pão de ló do Universo (PORTUGAL) com coulis de frutos vermelhos

GEOGRAPHIA

Mousse de chocolate de São Tomé com o seu salame e com café em pó no prato (SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE)

GEOGRAPHIA

Café “GEOGRAPHIA”, com grãos vindos de TIMOR, SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE, CABO VERDE, BRASIL (Arábica) e ANGOLA (Robusta)

 

Fotografias: Marta Felino e Raul Lufinha

 

Ver também:

 

GEOGRAPHIA
Rua do Conde, 1, Lisboa, Portugal

 

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publicado às 14:08

Uma visita guiada ao museu… que termina à mesa

por Raul Lufinha, em 04.12.19

GEOGRAPHIA

7 de dezembro, o primeiro sábado deste mês

O GEOGRAPHIA é um restaurante de viagens – e de viajantes – que celebra a “comida que fala português”, apresentando pratos dos países dos quatro cantos do mundo que partilham a nossa língua.

Fica em Lisboa – entre a Lapa, as Janelas Verdes e Santos.

E, no âmbito de uma estimulante parceria com o Museu Nacional de Arte Antiga que tira partido da vizinhança privilegiada e dos aspetos culturais que os ligam, criou um programa especial, disponível no 1.º sábado de cada mês (e também de terça a sexta, para reservas de grupo), que, pelo preço de 35 euros por pessoa, inclui uma visita guiada ao museu, com passagem pelas mais emblemáticas obras em exposição, e um almoço no GEOGRAPHIA, composto por couvert, entrada, prato principal, sobremesa e bebidas, que é uma viagem pelo sabores do mundo que falam português.

A próxima edição é já este sábado, 7 de dezembro, pelas 11h00.

 

GEOGRAPHIA
Rua do Conde, 1, Lisboa, Portugal

 

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publicado às 21:27


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